sexta-feira, 24 de junho de 2011

Guerra de mamonas

Elas não eram assassinas, mas formavam nosso principal arsenal de guerra travada as ruas e praças da cidade. As guerrinhas de mamonas colocavam em lados opostos pequenos grupos de meninos curvelanos, que tinham nos lotes baldios o paiol de munição. Esferas verdes com cerdas flexíveis eram atiradas, num interminável fogo cruzado. Não me lembro se chegavam a machucar. Era quase um paintball primitivo. A oleoginosa só voltou a ganhar fama nos anos 1990 com a banda pop inspirada nela e nas tentativas frustradas do governo de transformá-la em matéria-prima para biocombustíveis. Abundantes no cerrado mineiro e nas mãos dos guerrilheiros das tardes quentes da Curvelo de 30 anos atrás. Fazíamos a versão sertaneja da batalha de bolas de neve dos meninos do hemisfério norte no inverno.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Bichos do jogo

A contravenção mais aceita do país também tinha seus pontos abertos na Curvelo dos meus tempos. A Esquina da Sorte tinha um nome que dizia por si só. Lá na Praça Benedito Valadares um senhor de gravata borboleta era o fiador do lugar. Na primeira vez que pisei no lugar, ganhei no jogo do bicho, apostando no par Borboleta e Camelo. Era uma aposta firme, cuja dica tinha literalmente caído aos meus pés na travessia para a escola. Foi a primeira e única vez que ganhei também. Lembro-me que no lugar tinha também itens para a prática religiosas afrodescendentes. Só não tenho certeza se lá havia aquele famoso biombo de treliça de madeira que ainda caracteriza os pontos daquele popular jogo.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Epílogo no final

Quando era um reles telespectador de filmes e seriados importados, sobretudo dos Estados Unidos, pequenos detalhes pareceriam hoje grandes frescura. Na minha tela preto e branco vinha escrito na linha inferior os caracteres brancos colocados pela emissora e que identificavam o programa e a parte em que se encontrava. Os blocos eram divididos em parte I, parte II, Parte III, parte IV e epílogo. Epílogo? Isso mesmo, assim era chamada a parte final dos longas. Dependendo da hora, a palavra estranha era o sinal de que a hora de ir dormir estava chegando. Boa noite.

Canequinha de ferro

Poucos objetos me inspiram tanta nostalgia como as canequinhas de café esmaltadas. Meus velhos parentes já diziam que cafezinho bom era aquele passado (mineiro fala passar e não coar) na hora e água fervida no fogão de lenha. Depois era só servi-lo com broas ou bolo de fubá ou pão de queijo. “Bom dimais, sô”. A bebida cafeinada e açucarada – não tínhamos opção a essas duas qualidades – queimava os lábios de tão quentes que caínham no vasilhamente de ferro pintado. Branquinhas, com "machucadinhos" escuros (até essas pintas dão saudade) e detalhes pintados em azul, as canequinhas ficavam até penduradas, reservadas para os donos. Bons tempos.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Virou suco

Q-Suco, que a gente pronunciava quísuco, era o refresco oficial da garotada. Refrigerante era coisa de fim de semana, festinha de aniversário e quermesse. O Q-Suco e o seu concorrente Q-Refresco, pozinhos colorinhos vendidos em sachês laminados por dentro, faziam jarras de litro de suco com enorme praticidade. Os sabores preferidos eram os de uva (roxo), framboesa (vermelho) e abacaxi (amarelo). E o efeito colateral de beber aquelas soluções com cor e aroma artificiais eram as línguas tingidas no tom da embalagem. Esses produtos também se convertiam nos chamados geladinhos, saquinhos plásticos colocados no congelador e vendidos por autônomos como picolés da hora. Acho que também se chamavam chup-chup. Mais adiante surgiu o Tang, uma versão mais encorporada e menos tinta do Q-Suco.

De olho no piolho

Lenços, tocas de banho e até sacos plásticos usados como capuz. Por dentro, doses fartas do pó tóxico Neocid, deixando nossa cabeleira grisalha. Era até engraçado ouvir o tic-toc da latinha sendo apertada para bombear o veneno branco por um buraquinho aberto com prego. Éramos proibidos de coçar enquanto o Neocid agia. “Não coça, não. Eles estão morrendo. É bom para matar as lêndeas (os filhotes do piolho)”, orientava quem aplicava. Para completar a operação, mamãe pegava uma folha de papel ou um pano e passava o pente-fino no cabelo. Este é o retrato do combate, liderado por nossas mães, a uma verdadeira epidemia social. O piolho não saía de nossas cabeças no primário e não era por descuido. Era só a cabeça começar a coçar pra coisa ficar muito desagradável e a batalha começar. Outra maneira de combatê-los era a dos macacos: sábado à tarde, nossas mães nos colocavam no colo e começavam a catar e a esmagar os insetos sangue-sugas com as unhas dos polegares. Quando achava um grande, diziam: “ó que boi!” Quem tinha muito cabelo, dizia-se que estava “pingando piolho”. Piolho era também apelido de menino comprido e magro.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Nossa vila olímpica

A Praça de Esportes, de onde despontava o majestoso Ginásio Coberto de Curvelo (Castelo de Gray Skull, no apelido dado pelo amigo Carlos Wagner Santos), era a nossa vila olímpica. Um espaço público com várias quadras poliesportivas, uma piscinona olímpica mesmo e pistas entre os equipamentos para a gente correr adoidado. Ali nós, estudantes das escolas curvelanas da rede estadual de ensino, fazíamos aula de educação física e participávamos de competições. Mas o lugar, vizinho de uma gigante caixa d'água da Copasa, também era um clube social: o Curvelo Tênis Club (CTC). Nunca entendi esse cruzamento de coisa privada com coisa pública. Lembro-me do dia que me frustrei ao tentar nadar lá numa tarde quente e o porteiro me barrou, pedindo a carteirinha. Bons tempos...