domingo, 4 de setembro de 2011

Bar... Ba... Papa

Passava no programa infantil Globinho, se não me engano, um desenho animado símbolo da minha geração. Diferente de tudo, a família Barbabapa era uma produção europeia com conteúdo educativo. Lembro de cada personagem ser bem diferente do outro pela cor, pelo tamanho e pelos adereços. Eram verdadeiros pufs falantes, com formas de peras maleáveis e que se deslocavam sem pernas. Seus olhos grandes e seu bordão "barbapapa" são inesquecíveis. Tinha o barbapapa, a barbamama, os filhos barba todos etc. Desapareceram de cena e nunca mais vi qualquer nova versão. Pena.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Inseticídio

Parecia que estávamos em estado permanente de guerra com o mundo do insetos. As mudanças de estação, um lote capinado ou um alimento esquecido atrás do sofá eram suficientes para mobilizar exércitos de formigas e outros bichos para atacarem nossos lares. A resposta era igualmente implacável com muito DDT. Os detetizadores vinham iguais aos Caça-Fantasmas do cinema. O maior deles era o Seu Joaquim, uma figura folclórica, que bombeava um veneno branco, de fórmula própria, carregado nas costas num severo cilindro. Além de detetizar, o mais famoso profissional do ramo em Curvelo, também divertia os clientes com piadas, imitações de cachorros, solvejos que pareciam trompetes e outros números dignos de um artista de palco. Um cara altão e de olhos claros, que lembrava o ator global Jardel Filho, Joaquim era uma peça raríssima, o capitão desse inseticídio de rotina em nossas casas. Quando ele entrava, era uma mobilização geral, atacando cômodo por cômodo e desferindo maior força nos ralos. Tudo sem usar máscaras. Dizia que bastava um copo de leite.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Herva milagrosa

A mania de tomar Confrei ou fazer emplastos com suas folhas para ferimentos e inchaços se espalhou rapidamente pela cidade. Era como se tivesse sido descoberto o elixir para todos os males. As autoridades alertavam para os riscos da automedicação caseira, de conteúdo tóxico da planta parecida com espinafre, mas quase ninguém ligou.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Guerra de mamonas

Elas não eram assassinas, mas formavam nosso principal arsenal de guerra travada as ruas e praças da cidade. As guerrinhas de mamonas colocavam em lados opostos pequenos grupos de meninos curvelanos, que tinham nos lotes baldios o paiol de munição. Esferas verdes com cerdas flexíveis eram atiradas, num interminável fogo cruzado. Não me lembro se chegavam a machucar. Era quase um paintball primitivo. A oleoginosa só voltou a ganhar fama nos anos 1990 com a banda pop inspirada nela e nas tentativas frustradas do governo de transformá-la em matéria-prima para biocombustíveis. Abundantes no cerrado mineiro e nas mãos dos guerrilheiros das tardes quentes da Curvelo de 30 anos atrás. Fazíamos a versão sertaneja da batalha de bolas de neve dos meninos do hemisfério norte no inverno.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Bichos do jogo

A contravenção mais aceita do país também tinha seus pontos abertos na Curvelo dos meus tempos. A Esquina da Sorte tinha um nome que dizia por si só. Lá na Praça Benedito Valadares um senhor de gravata borboleta era o fiador do lugar. Na primeira vez que pisei no lugar, ganhei no jogo do bicho, apostando no par Borboleta e Camelo. Era uma aposta firme, cuja dica tinha literalmente caído aos meus pés na travessia para a escola. Foi a primeira e única vez que ganhei também. Lembro-me que no lugar tinha também itens para a prática religiosas afrodescendentes. Só não tenho certeza se lá havia aquele famoso biombo de treliça de madeira que ainda caracteriza os pontos daquele popular jogo.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Epílogo no final

Quando era um reles telespectador de filmes e seriados importados, sobretudo dos Estados Unidos, pequenos detalhes pareceriam hoje grandes frescura. Na minha tela preto e branco vinha escrito na linha inferior os caracteres brancos colocados pela emissora e que identificavam o programa e a parte em que se encontrava. Os blocos eram divididos em parte I, parte II, Parte III, parte IV e epílogo. Epílogo? Isso mesmo, assim era chamada a parte final dos longas. Dependendo da hora, a palavra estranha era o sinal de que a hora de ir dormir estava chegando. Boa noite.

Canequinha de ferro

Poucos objetos me inspiram tanta nostalgia como as canequinhas de café esmaltadas. Meus velhos parentes já diziam que cafezinho bom era aquele passado (mineiro fala passar e não coar) na hora e água fervida no fogão de lenha. Depois era só servi-lo com broas ou bolo de fubá ou pão de queijo. “Bom dimais, sô”. A bebida cafeinada e açucarada – não tínhamos opção a essas duas qualidades – queimava os lábios de tão quentes que caínham no vasilhamente de ferro pintado. Branquinhas, com "machucadinhos" escuros (até essas pintas dão saudade) e detalhes pintados em azul, as canequinhas ficavam até penduradas, reservadas para os donos. Bons tempos.