domingo, 6 de outubro de 2013

Sorvete da máquina

A doce infância de Curvelo tinha entre os seus símbolos guloseimas industrializadas e artesanais. O sorvete americano, sobretudo aquele que comprávamos na Praça Benedito Valadares, é algo inesquecível. A máquina que tirava o conteúdo das casquinhas e potinhos na hora era uma delícia para os olhos, com suas garrafas de vidro viradas para baixo, fazendo barulhos elétricos e de bolhas de ar, quando era acionada. O sorveteiro de balcão também tinha sua técnica para ir assentando aquele tubinho de sorvete, uma coluna do sabor escolhido, girando, subindo e descendo. Gostava muito do sorvete de limão, que não era dos mais populares. Pareciam menos doces e mais consistentes. Vocês se lembram? A loja da praça que falei se chamava, curiosamente, sorvete italiano, não é isso mesmo? Uma parada obrigatória naquelas tardes calourentas.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

As músicas de Luiz Cláudio

Desde o dia que nascemos, aprendíamos que a maior voz de Curvelo pertencia a Luiz Cláudio de Castro (1935-2013), o mais bem sucedido cantor curvelano da história e um dos poucos nomes no panteão de nossos heróis das artes, entre os quais se incluem o escritor Lúcio Cardoso, o cartunista Alceu Penna e o ator global Ângelo Antonio. Aquela voz aveludada, cantando uma música que tinha letra de Guimarães Rosa e o nome de nossa cidade no meio nos enchia de orgulho, registrado nos livros de história do município. Sabíamos de um tempo em que ele foi muito elogiado pela crítica e fazia parcerias com grandes artistas da MPB. Outro momento de orgulho que ele nos proporcionou foi quando esteve no programa Som Brasil, apresentado por Lima Duarte, nas manhãs de domingo da Rede Globo daqueles anos 1980. Lá estava a estação de trem no estúdio com a plaquinha de nossa terra. Eita! Sambas, modinhas e o cancioneiro mineiro estavam nos seus discos. Entre outras músicas que lembro estava A rua onde ela mora, composta com Antônio Maurício de Castro, e Blim, blem, blam, com Nazareno de Brito. Obrigado ao mineiro bom, como o apresentador Flávio Cavalcanti lhe chamava.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Dominique, nique, nique...

A música cantada pela freirinha de violão rodeada de crianças nunca saiu de minha cabeça. Um antigo sucesso dos anos 1960, tema do filme norte-americano Dominique (The Singing Nun, EUA, 1966), com Debbie Reynolds e Ricardo Montalban (o senhor Roarke de A Ilha da Fantasia), tinha como refrão o famoso "Dominique, nique, nique... Sempre alegre esperando alguém que possa amar". O programa típico de Sessão da Tarde nos anos 1970 era baseado num musical infantil, por sua vez inspirado numa personagem real, a religiosa belga Souer Sourire, a Irmã Sorriso. Ela cuidava de crianças pobres e vivia cantando. Composta e gravada pela própria, a versão em português é da cantora Giane, que por muito tempo ficou nas paradas de sucesso em 1965. O Trio Esperança também gravou a musiquinha cujo refrão completava: "O seu príncipe encantado, seu eterno namorado / Que não cansa de esperar".

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Rainha do lar

Se o leão com seu brado rugido é o rei da floresta, nas nossas arrumadinhas casas dos anos 1970 a enceradeira reinava entre os eletrodomésticos. Para perturbar quem queria ela ganhava do liquidificador em som e tempo. Hoje superada por produtos pós-cera e outros lustras pisos maravilhosamente práticos, as rainhas de lata e longos fios chegavam a todos os cômodos do lar, praticamente só não passava em banheiros, jardins e terreiros cimentados. Lá estava ela, a magricela que parecia um aparato sofisticadíssimo, com colunas que dobravam na base, escovas pesadas ou leves, adequadas à superfície de trabalho. No taqueado, então, as velhas combatentes eram mestras. Só mamães e empregadas pareciam ter carteira de habilitação para pilotar aquelas sondas, mas nos atrevíamos a tentar dar cavalo de pau ou tentar lançar objetos colocados sob ela. Faziam suas tarefas (lustro ou brilho) com destemor, seja com uma ou duas bases giratórias. A de três me lembrava uma lateral da esteira de um tanque ou robô. A mais simples, com um discão de cerdas ou feltro, também tinha seu valor. Eram a nova geração daqueles escovões de ferro fundido e longos cabos de madeira. De rainha do lar virou rainha da sucata. Merecia uma canção de Odair José, o rei das domésticas, que cantavam músicas bregas como as dele. Mereciam uma biografia como memórias de enceradeira. Taí.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Tijolão analógico

Bons tempos aqueles. Tudo bem que nossos primeiros celulares são coisa dos anos 1990, aqueles tijolões analógicos que carregávamos na cintura com uma capa de couro atada ao cinto. Mas achei interesse mencionar o revolucionário meio portátil de comunicação para mostrar um ponto importante de transição. Eu me lembro de ter deixado a bateria de meu primeiro aparelho carregando mais de 24 horas para acionar pela primeira vez. Além disso, é legal lembrar que os filmes de ficção científica dos anos 1970 e 1980 dormiram nesse ponto. Viam o mundo futuro, do século 21 em diante sem a presença de celulares. Como estavam errados.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Semana de filmes santos

Feriado de Semana Santa passado em casa era muito comum para a gente naqueles anos 1970 e 1980. Aquele período era para ir à missa em pleno dia útil e de assistir à tarde na TV Globo uns filmes antigos com temática religiosa. A superprodução clássica de que mais recordo é o Milagre de Fátima. Nele, a passagem mais marcante para mim é quanto o padre diz “o diabo assume muitas formas”, depois do torturante interrogatório dele sobre as três crianças protagonistas da história baseada no episódio da aparição da Virgem Maria em Portugal, no começo do século passado. A telinha também nos oferecia nesses dias santos a série Heróis da Bíblia, muito legal mesmo, e aquela velha cinebiografia de Jesus na qual Ele aparecia só de costas em toda a duração. Vocês se lembram? Havia ainda os dois clássicos dos clássicos: Rei dos Reis e Ben-Hur. A gente se divertia na crença de que as sessões televisivas alimentavam os espíritos.

sábado, 4 de agosto de 2012

Fanfarra de 7 de Setembro

A palavra tarol ainda reverbera no meu ouvido e meu estômago ainda faz eco para o bumbo. Ta-ra-ra-ra! Tum-tum-tum! Todo ano éramos convocados pelo calendário escolar e municipal a participar de uma atividade cívica de grande escala, pelas ruas e sob o sol de Curvelo. O Sete de Setembro era uma farra, aliás uma fanfarra. Os ensaios consumiam semanas de véspera. Os integrantes da banda escolar cadenciavam a marcha dos alunos, que saíam em filas por classes. Os pelotões eram separados por balizas, aquelas meninas com bastões. Também tinha os alunos que levavam faixas e bandeiras de sua agremiação. Os cidadãos todos vinham nos ver e os familiares ficavam orgulhosos dos seus meninos e meninas uniformizados. Alguns vinham até caracterizados por algum personagem histórico ou fazendo a figuração deste. Depois da jornada patriótica no feriado, a dispersão e o retorno para a casa. O cortejo incluía também as forças fardadas da cidade, os policiais e militares. Tudo bonito.