sábado, 1 de outubro de 2011

Clubes de serviços

Se tinha algo que nos orgulhávamos no interior é o tal clube de serviços. Eram e são organizações de matriz norte-americana, com forte tradição do hoje conhecido terceiro setor, que fazia o bem e promovia o intercâmbio internacional em nome da paz. Na verdade, eles são dois: o Lions Club e o Rotary Club. Seus membros eram conhecidos, respectivamente, por leões e rotarianos. O trabalho social priorizava velhos e crianças carentes, apoio a amamentação, creches e seminários com figuras de fora. Mas o que mais chamava a nossa curiosidade e fazia a festa das colunas sociais eram as tais intercambistas, a maioria delas vinda dos Estados Unidos. As estrangeiras ficavam alguns meses em Curvelo, hospedadas na família designada para acolhê-la. Também tinha a mão inversa, com jovens curvelanas passando temporada na casa de uma mãe gringa. Geralmente na entrada de uma cidade mais evoluída sempre tinha marcos permanentes indicando a presença dos respectivos clubes naquela comunidade.

domingo, 11 de setembro de 2011

Merthiolarde

Havia um tempo que nos pintávamos para a guerra como índios. Cortes e arranhões ganhavam logo uma tintura vermelha por cima, que faziam o ferimento arder como nunca quando era aplicada. Hoje proibido na sua fórmula original com mercúrio cromo, o Merthiloate com sua espátula xadrez era um exemplar único da farmacinha doméstica. O único que o apoiava era o bandaid ou mesmo curativo com esparadrapo. Com ele, um pequeno machucadinho parecia um machucadão. Por isso, tive colegas que, para deixar de usar o sapato do uniforme escolar e desfilar de sandálias ou chinelos, pintavam os dedos dos pés com o antiséptico. Acreditam?

domingo, 4 de setembro de 2011

Bar... Ba... Papa

Passava no programa infantil Globinho, se não me engano, um desenho animado símbolo da minha geração. Diferente de tudo, a família Barbabapa era uma produção europeia com conteúdo educativo. Lembro de cada personagem ser bem diferente do outro pela cor, pelo tamanho e pelos adereços. Eram verdadeiros pufs falantes, com formas de peras maleáveis e que se deslocavam sem pernas. Seus olhos grandes e seu bordão "barbapapa" são inesquecíveis. Tinha o barbapapa, a barbamama, os filhos barba todos etc. Desapareceram de cena e nunca mais vi qualquer nova versão. Pena.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Inseticídio

Parecia que estávamos em estado permanente de guerra com o mundo do insetos. As mudanças de estação, um lote capinado ou um alimento esquecido atrás do sofá eram suficientes para mobilizar exércitos de formigas e outros bichos para atacarem nossos lares. A resposta era igualmente implacável com muito DDT. Os detetizadores vinham iguais aos Caça-Fantasmas do cinema. O maior deles era o Seu Joaquim, uma figura folclórica, que bombeava um veneno branco, de fórmula própria, carregado nas costas num severo cilindro. Além de detetizar, o mais famoso profissional do ramo em Curvelo, também divertia os clientes com piadas, imitações de cachorros, solvejos que pareciam trompetes e outros números dignos de um artista de palco. Um cara altão e de olhos claros, que lembrava o ator global Jardel Filho, Joaquim era uma peça raríssima, o capitão desse inseticídio de rotina em nossas casas. Quando ele entrava, era uma mobilização geral, atacando cômodo por cômodo e desferindo maior força nos ralos. Tudo sem usar máscaras. Dizia que bastava um copo de leite.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Herva milagrosa

A mania de tomar Confrei ou fazer emplastos com suas folhas para ferimentos e inchaços se espalhou rapidamente pela cidade. Era como se tivesse sido descoberto o elixir para todos os males. As autoridades alertavam para os riscos da automedicação caseira, de conteúdo tóxico da planta parecida com espinafre, mas quase ninguém ligou.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Guerra de mamonas

Elas não eram assassinas, mas formavam nosso principal arsenal de guerra travada as ruas e praças da cidade. As guerrinhas de mamonas colocavam em lados opostos pequenos grupos de meninos curvelanos, que tinham nos lotes baldios o paiol de munição. Esferas verdes com cerdas flexíveis eram atiradas, num interminável fogo cruzado. Não me lembro se chegavam a machucar. Era quase um paintball primitivo. A oleoginosa só voltou a ganhar fama nos anos 1990 com a banda pop inspirada nela e nas tentativas frustradas do governo de transformá-la em matéria-prima para biocombustíveis. Abundantes no cerrado mineiro e nas mãos dos guerrilheiros das tardes quentes da Curvelo de 30 anos atrás. Fazíamos a versão sertaneja da batalha de bolas de neve dos meninos do hemisfério norte no inverno.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Bichos do jogo

A contravenção mais aceita do país também tinha seus pontos abertos na Curvelo dos meus tempos. A Esquina da Sorte tinha um nome que dizia por si só. Lá na Praça Benedito Valadares um senhor de gravata borboleta era o fiador do lugar. Na primeira vez que pisei no lugar, ganhei no jogo do bicho, apostando no par Borboleta e Camelo. Era uma aposta firme, cuja dica tinha literalmente caído aos meus pés na travessia para a escola. Foi a primeira e única vez que ganhei também. Lembro-me que no lugar tinha também itens para a prática religiosas afrodescendentes. Só não tenho certeza se lá havia aquele famoso biombo de treliça de madeira que ainda caracteriza os pontos daquele popular jogo.