domingo, 23 de agosto de 2009

Jardins da infância

Plantas em forma de bichos, seivas venenosas parecidas com cola escolar, lagartas de verde reluzente, casulos ocultos por folhas, trevos da sorte comestíveis, vasos feitos de raízes, canteiros cercados de pedra, flores convertidas em bailarinas, nomes engraçados, mãos cuidadosas cheias de calos, maquetes de floresta para bonequinhos, verde de todas as tonalidades e idades, segredos de minhoca, picadas doídas, água regada, muita água. O barulho da água da mangueira nas folhas grandes parecia tambores das selvas. Esta pode ser a descrição do país das maravilhas das crianças curvelanas que nasceram e cresceram entre os cultivos de jardins e quintais de suas casas. Decorar o lar era a razão oficial para a existência dos jardins, mas talvez fosse a menos importante. As crendices diziam que as plantas estavam lá por razões medicinais e espirituais. O cultivo de plantas ajudava a curar males do corpo e a espantar maus olhados. Quando lembro dos jardins da infância constato algo de mágico e de forte saudosismo. Percorria alamedas em todas épocas do ano. Sob o sol, todas as cores, com predomínio do verde. E para os meninos, brincadeiras e sonhos de aventuras.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Brinquedoteca clássica

As listas de brinquedos considerados hoje clássicos rolam solto na internet. Não falta nostalgia e imagens capturadas para ilustrar a relação de objetos dignos de culto pela geração dos anos 80. Lembro-me de cara do Pula Pirata e do Cão Xereta. Embora não tivesse esses dois, sabia deles e conhecia a publicidade. Outro é o bonequinho do ET, mais simpático que o personagem de Spielberg. De formas variadas, trunfo de colecionadores mirins, havia as séries de soldadinho de plástico (verdes e cáquis), as caixinhas e os frasquinhos das mini coca-cola e os ioiôs, também da marca de refrigerantes. E o robozinho controlado remotamente Ar-Tur? Inesquecível. Mais clássicos aindas eram o Disney Molde para os aspirantes a escultores e o kit Pequeno Arquiteto, com pecinhas de madeira que viravam prédios, igrejas, cidades inteiras. Coisas bobinhas pelas quais babávamos e nos divertiam muito eram a Mão Biônica e a Garra sei-lá-o quê. Mas a lista é bem maior: Aquaplay, Lego, Playmobil, futebol de botão, Pega Vareta, Genius e cubo mágico. Joguinhos? Palavras cruzadas (com pecinhas de madeira), War, Detetive (gostava da biblioteca inglesa e as pecinhas de plástico) e Ludo. Por fim, a mascote das cozinhas: a Galinha da Maggi. Bons tempos aqueles.

domingo, 9 de agosto de 2009

O logotipo diz tudo

Os pingos de colírio poderiam ser ou Lavolho ou Moura Brasil, tradicionalíssimos. Aliás, eram poucas as marcas que frequentavam o armário do banheiro. Acostumados ao tempo seco e à poeira, o colírio podia significar alívio imediato, sobretudo para os mais velhos. A bula do Moura Brasil, frasco de 20 ml, diz que o produto "descongestiona os olhos vermelhos, aliviando as irritações", o definindo como "solução oftálmica antisséptica, adstringente e sedativa para o tratamento das irritações e infecções da conjuntiva. Conjuntivites, irritações oculares (poeira, vento, calor, fumaça, gases irritantes, luz e corpos estranhos)". Além disso, adverte que o colírio "não deve ser administrado a pacientes com glaucoma de ângulo agudo ou que apresentam predisposição ao glaucoma". E que deve ser usado "com precaução" em pacientes com problemas cardiovasculares, diabete, doenças oculares graves, infecção ou na presença de ferimento ocular, hipertensão, hipertiroidismo ou com hipersensibilidade à nafazolina.

Boi da cara preta

Viver num dos maiores pólos criadores de zebu e guzerá do mundo acaba nos expondo à cultura dos currais, mesmo que não frenquentemos sítios e fazendas. Fincados no meio urbano curvelano víamos o desfile de fazendeiros e empregados rurais, no comércio, de passagem, em busca de serviços. O leite da região movimenta o maior dos negócios da cooperativa agropecuária local e o parque de exposições apresentava, pelo menos uma vez por ano, animais chifrudos de grandes portes. Meninos da cidade, conhecíamos desde cedo essa fauna e não nos assustávamos com a careta do boi-boi-boi da cara preta. Até hoje me arrependo de não ter comprado um chapéu de couro ou me deixar ser fotografado ao lado de um boi premiado.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Mármore de refinaria

Para dar conta de tanta criatividade fomentada pelas nossas boas escolas públicas de Curvelo dos anos 1970 e 1980, um material parecia ser indispensável. Com ele eram feitos variados painéis, bonecos e outros objetos decorativos. Eram as tradicionais placas ou folhas de isopor, de diferentes tamanhos e espessuras. Podiam ser cortados por facas dentadas, dessas de cortar pão, ou, com alguma habilidade, por arames em brasa. Ver as formas surgindo após o rápido deslizar do fio quente era como presenciar um instante mágico.

Milagre da chave

Se alguém se chama Geraldo tem alta probabilidade de ser mineiro e uma grande chance de ser curvelano. O santo italiano de Muro chegou por acaso na cidade e ganhou mais destaque local que o próprio padroeiro, Santo Antônio. Dos painéis que narram sua biografia (a mais inusitada dos heróis católicos) pintados por artistas europeus nas paredes da basílica de Curvelo, o que me chamava mais atenção era o do "milagre da chave". A idolatrada imagem do menino Jesus foi usada por Gerardo (o nome correto, no original) como imã para retirar a peça do fundo da cisterna. Para o espanto dos que presenciaram o milagre, a escultura surgia com o perdido na mão. Nossos olhos de menino se encantavam com aquele fenômeno protagonizado por um leigo que sonhava em ser sacerdote, a despeito de sua pobreza e baixa instrução. No santuário (a outra denominação do nosso majestoso templo redentorista) também se destacava a imagem do santo morto. Para os inocentes garotos, São Geraldo dormia de sapatos.

domingo, 2 de agosto de 2009

Totó Futebol Clube

Bons tempos aqueles... Íamos pro clube, o Recreativo no meu caso, para jogar totó. Acho que hoje se fala pebolim, não? Um jogo de futebol de mesa formado por 11 bonequinhos de chumbo de cada lado, fixos em quatro barras manejadas externamente pelos reais jogadores. Podiam ser competidores individuais ou em duplas. Até mulheres participavam. Mas eram partidas duras, verdadeiros rachas de fim de campeonato, a julgar pela força dos chutes e das rebatidas das defesas. O goleiro tinha que ficar bem firme para deixar escapar um humilhante gol. Os disparos dos atacantes e mesmo dos beques e dos volantes eram tão fortes que a bolinha branca e dura chegava a saltar da cancha, nos fazendo virar gandulas do cimento. Se não me engano, a gente comprava as fichas pro totó no balcão da lanchonete do campestre. Elas liberavam uma a uma as seis bolinhas que caíam no reservatório da mesa. Esta era mais uma das diversões sadias que curtíamos em tardes quentes e compridas de sábado no CRC. Alguém se lembra de mais detalhes?